segunda-feira, 15 de abril de 2013

Ensino Médio


Aposta do governo para ensino médio é gerenciada por institutos

Apenas Instituto Unibanco coordena gestão em escolas onde estudam 25% dos alunos da etapa. Outro gigante, Ayrton Senna, estreia este ano no Ensino Médio Inovador

Cinthia Rodrigues e Tatiana Klix - iG São Paulo 
Iniciado em 2009 e lembrado a cada vez que se fala em mudanças no currículo o programa Ensino Médio Inovador é a principal ação do governo federal em parceria com as secretarias estaduais de Educação para melhorar a etapa de ensino. O programa consiste em repasses diretos às escolas que mantiverem os alunos por duas horas a mais e desenvolvam atividades que atendam aos anseios específicos de cada comunidade. Na prática, na falta de um projeto modelo a seguir, as secretarias de Educação que aderiram têm repassado a ONGS o gerenciamento do programa.
O caso mais amplo é do Instituto Unibanco, que atenderá indiretamente a um em cada quatro estudantes do ensino médio em todo o País nos próximos três anos. O projeto Jovem de Futuro, testado em 45 escolas entre 2007 e 2011 foi adotado a partir do ano passado pelas redes estaduais de cinco estados para que, até 2016, atue em todas as 2.520 instituições de ensino médio que atendem 2 milhões de jovens em Ceará, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará e Piauí.
Em cada uma dessas escolas uma verba de R$ 100 por aluno será destinada por ano à instituição. A escola Liceu do Conjunto, em Fortaleza, no Ceará, está entre as que começaram em 2012 e tem investido em projetos multidisciplinares. “No ano passado fizemos um trabalho chamado As Sete Maravilhas do Ceará e os alunos se envolveram muito por se tratar de coisas próximas”, comemora a diretora Maria do Socorro Nogueira de Paula.
Segundo ela, o dinheiro tem sido muito importante e servido para diferentes pendências dentro da instituição que incluem até compra de material e compra de equipamentos. O maior ganho para ela, no entanto, foi a formação. “No início, a gente fica meio nervoso em participar (do Ensino Médio Inovador), mas a formação vem clarear o caminho”, diz. Ela explica que diretores e coordenadores recebem aulas bastante variadas em geral em ambientes fora da escola. “Geralmente levam a gente para um hotel na praia e tem um trabalho do coaching. Nossa, esse investimento no nosso potencial, em nos levar a nos conhecer, você não imagina como funciona”, conta.
A diretora diz que, logo no primeiro ano, os índices de evasão diminuíram e agora a expectativa é de haver algum incremento nas habilidades de leitura e escrita e em matemática. “Seguimos diretrizes do projeto e o segundo objetivo é esse”, diz.
O material do Projeto Jovem de Futuro inclui manuais de implantação, gestão 

e acompanhamento para os Estados e, para as escolas, manual de elaboração do plano de melhoria da qualidade, apostilas e vídeos do curso de capacitação de gestores escolares, avaliação diagnóstica de língua portuguesa e matemática e do impacto do projeto. Maria do Socorro elogia o projeto, mas preferiu não opinar sobre a interferência de uma instituição ligada à iniciativa privada em um projeto com dinheiro público. “A gente vai seguindo porque vem da Secretaria de Educação, não vou opinar a esse respeito.”

O Instituto Unibanco atua especificamente na gestão de ensino médio há mais de uma década. O impacto no projeto piloto do Jovem de Futuro foi medido por pesquisas coordenadas pelo subsecretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Ricardo Paes de Barros. O iG o procurou, mas não obteve retorno. Segundo o Instituto Unibanco, comprovou-se a eficiência do programa. “Em Belo Horizonte, por exemplo, as escolas onde o projeto não foi aplicado levariam 3,7 anos para atingir a meta de português e 6,3 anos para atingir a de matemática. O progresso que as escolas de Porto Alegre obtiveram em português só poderia ser alcançado pelas escolas não atendidas em 3,7 anos. Esse mesmo grupo levaria 23 anos para atingir a meta em matemática”.
Ayrton Senna
Com experiência na capacitação de professores e implantação de programas para melhorar o aprendizado de alunos do ensino fundamental desde 1994, o Instituto Ayrton Senna estreou este ano sua atuação no ensino médio, também pelo programa do governo federal em uma escola do Rio de Janeiro. Um currículo inovador, que atende as diretrizes do Ministério da Educação, mas agrega competências não cognitivas (sócio-afetivas, pessoais, de conhecimento) foi elaborado por uma equipe interdisciplinar da ONG para o Colégio Chico Anysio , inaugurado em 2013 na rede estadual fluminense.

Divulgação
Colégio Chico Anysio, no Rio de Janeiro, usa currículo desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna

“Dentro do que a legislação brasileira permite, estamos propondo um currículo para fazer com que os alunos vejam sentido na escola. Não é profissionalizante, mas desenvolve competências para atender ao mercado de trabalho e para a conquista da autonomia”, explica Inês Kisil Miskalo, coordenadora da área de Educação Formal do Instituto Ayrton Senna.
Para implantar a proposta pedagógica que promete formar bons cidadãos e bons profissionais, o instituto ofereceu um treinamento para a direção e professores da escola que começou em dezembro, com explicações conceituais sobre o modelo. Em fevereiro, foram apresentadas situações práticas e roteiros de orientação para que os docentes possam planejar o seu trabalho e, ao longo do ano, profissionais da ONG ainda oferecem suporte a eles. Além disso, é realizada uma reunião semanal pedagógica de quatro horas.
Apesar desse acompanhamento, o objetivo do instituto é que a comunidade escolar se aproprie do projeto e o aprimore. “A mesma autonomia que se espera do aluno é trabalhada com o professor. Damos apoio para que ele faça propostas. A expectativa é que surjam ideias da própria escola”, explica.
Sem receber pagamento, o instituto tem o compromisso com o governo estadual de coordenar a gestão da escola durante três anos, durante os quais os alunos e professores serão avaliados sistematicamente, enquanto o modelo será ajustado. “Não usamos o termo ‘piloto’, mas ‘primeira edição’, que ao longo do processo sofre melhorias”, diz Miskalo, que garante que o modelo poderá ser depois replicado a outras escolas e redes. “Não estamos pensando nessa escola especificamente, estamos pensando no ensino médio do Brasil.”
O Ministério da Educação mantém um Guia de Tecnologias para que redes municipais e estaduais responsáveis pelo ensino básico – fundamental e médio – busquem parceiros. O Jovem do Futuro consta da publicação que está disponível online ao lado de outras 200 “tecnologias pré-qualificadas” pelo órgão para 2011 e 2012.
O ensino médio é a etapa escolar que mantém os piores índices na educação brasileira . Osresultados negativos já se repetem há 12 anos . As mudanças propostas pelo Conselho Nacional de Educação em 2011 eram de flexibilização do currículo, que só foram aprovadas pelo ministro Aloizio Mercadante no final de 2012 .

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